terça-feira, 18 de janeiro de 2011

FÁBRICA DE PÓLVORA

Foto de Maria Conceição Rosa, disponível no seguinte endereço eletrônico:
Muito obrigado, Maria, por disponibilizar esse material on-line!

Pessoal, estava no Arquivo Histórico do Exército fuçando nos Boletins do Exército dos anos de 1911 e 1912 procurando informações sobre a Vila Militar nesse período, quando encontrei algo que me chamou a atenção. Era o regulamento da fábrica de pólvora! Bem, existiam duas fábricas de pólvora no período, e confesso que na pressa de copiar não prestei atenção se era a Fábrica de Pólvora da Estrela ou se era a Fábrica de Pólvora Seca. Bem, de qualquer forma a tabela que transcreverei aqui deveria ser bem semelhante para as duas: trata-se dos vencimentos dos funcionários e dos respectivos cargos existentes na fábrica (assim como o número de funcionários para cada cargo). É difícil encontrar tabelas convertendo Réis em Reais... trabalho complicado, pois as cotações mudaram muito ao longo do tempo. Bem, mas para situar um pouco melhor o leitor, tomei por base o valor da etapa nas principais cidades do país em 1911. O que é a etapa, vocês perguntam? A etapa é o valor médio gasto pelo militar para passar um dia. Digamos que corresponde ao valor de duas refeições, mais ou menos. Sendo assim, temos a seguinte tabela com o preço da etapa em algumas cidades:

Florianópolis ................................1$200
Maceió.........................................1$308
São Gabriel..................................1$095
Ponta Grossa................................1$280

Essas cidades são exemplos de quanto custava a etapa. Pois bem, tirando uma média de 1$200 Réis para a etapa, uma refeição custava em média 600 Réis. Assim, vamos fazer uma comparação (bem simples mesmo, só para se ter uma idéia) e estipular o almoço hoje em R$15,00 em média. Assim teríamos R$1,00 = 40 Réis.

Bem, aqui está a tabela com os cargos e a remuneração respectiva:

TABELA DOS VENCIMENTOS DOS FUNCIONÁRIOS DA FÁBRICA DE PÓLVORA

Cargo                                        nº de funcionários                              Salário
 Escrivão ............................................1.........................................   450$000
 Amanuenses...................................... 4.........................................   350$000
 Escreventes........................................4 ........................................   250$000
 Almoxarife......................................   1 ........................................... 400$000
 Agente............................................   1 .........................................   350$000
 Apontador......................................   1 ........................................    250$000
 Guarda-Geral..................................   1 .......................................     250$000
 Porteiro...........................................   1 .......................................     180$000
 Maquinista-Chefe............................   1 .........................................   450$000
 Eletricista ..........................................1 ........................................     400$000
 Ajudante-Eletricista ........................   2 ........................................     300$000
 Encarregado de oficina....................   4 ........................................     372$000
 Operários 1ª Classe.......................   10 .......................................          8$000 (diária)
 Operários 2ª Classe.......................   15 .......................................          7$000 (diária)
 Operários 3ª Classe .......................  20 .......................................          6$000 (diária)
 Operários 4ª Classe.......................   44 .......................................          5$000 (diária)
 Operários 5ª Classe.......................   55 .......................................          4$000 (diária)
 Serventes.......................................   20 .......................................          3$000 (diária)

Fonte: Boletim do Exército nº111 de 10 de março de 1911, disponível para consulta em: Arquivo Histórico do Exército, Coletânea de Boletins do Exército do Ano de 1911, p.281 e 282.

A lista contava ainda com alguns outros cargos, mas ficaria deveras extensa e minha pesquisa é sobre a Vila Militar. Mas acho que, pra quem gosta de números históricos, já é alguma coisa! Ressaltando que os valores descritos são mensais, salvo os indicados como diários, caso dos operários. Outra coisa a se destacar é a equivalência do salário dos três primeiros cargos descritos (Escrivão, Amanuense e Escrevente) com os dos oficiais do Exército que lá trabalhavam (classificados no documento como oficiais de 1ª, 2ª e 3ª classe). O salário do Diretor, que era militar, correspondia ao vencimento do posto do mesmo.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Rebelião!


Gosto muito de Heavy Metal! Algumas canções, como não poderia deixar de ser, mencionam episódios de guerra. Uma das minhas "músicas de guerra" favoritas se chama "Rebellion", da banda alemã "Grave Digger". E esse post vai contar um pouco sobre a guerra a que a música se refere.

HIGHLANDS

"The clan's are marching 'gainst the law
Bagpipers play the tunes of war
Death or glory i will find
Rebellion on my mind"



Esta parte da música (o refrão) se refere às tropas que o príncipe Charles reuniu na Escócia para tentar reaver o trono do Reino Unido para seu pai (neto do rei Jaime II, deposto). Os clãs escoceses, católicos, se uniram ao príncipe com objetivo de restaurar o poder aos católicos, depostos na Revolução Gloriosa que ocorreu entre 1695 e 1740. Os "Bagpipers" são os tocadores da gaita de fole, instrumento tradicional na Escócia. As tropas, então, marchavam embaladas ao som das gaitas de fole. Só para ressaltar, a maioria dos ingleses não queriam que o poder voltasse às mãos dos católicos, visto que os comerciantes, protestantes, estavam trazendo prosperidade ao Reino Unido.


BONNIE PRINCE CHARLES

Rumours know that rebellion will break out
Bonnie Prince Charles is in the highlands to claim his
crown no doubt
He raised his Standart at Glenfinnen calling to our pride
The Jacobites are gathering I'll be at their side

Os rebeldes que tentavam a restauração eram chamados de "jacobinos". Esses rebeldes partiram do continente europeu, onde estavam exilados, e chegaram apoiados pelos franceses até as "Highlands" escocesas. Se não houvesse a deposição de Jaime II, o pai do príncipe Charles seria rei e a música diz que era sem dúvida um direito do príncipe lutar pela coroação seu pai. O vocalista da banda diz que estará ao lado dos rebeldes!!!

BATALHA DE PRESTONPANS

The town of Edinburgh fell soon in our hands
Defeated the English at the Battle of Prestopans

Ocupados no continente com a Guerra de Sucessão Austríaca, as tropas inglesas estavam reduzidas em seu território. Aproveitando-se disso, "Bonnie Charles", como era chamado o príncipe, derrota as forças inglesas na Batalha de Prestonpans (1745). Seria um presságio da vitória final da revolução?

MAS NO FIM...

Apesar da exaltação aos jacobinos feita pela banda, eles são derrotados e a revolução falha!!! Bom, mas a música é bem legal, não é mesmo? O príncipe Charles foi exilado e viveu por muitos anos depois, sempre lamentando e reclamando, ao que parece, pelo fracasso de sua empreitada.

Para quem quiser mais informações sobre os eventos, vejam:



segunda-feira, 3 de janeiro de 2011



A BUSCA DO GRAAL


Pois é, a busca desse objeto sagrado, o Graal, que foi utilizado para recolher o sangue de Jesus Cristo durante a crucificação, foi tema de inúmeros livros ao longo dos anos. Mas ninguém criou uma narrativa tão boa e com tanta base histórica quanto o autor inglês Bernard Cornwell. Terminei de ler o segundo livro da trilogia e estou fascinado. Tecerei alguns comentários sobre a obra. Mas não se preocupe, não conterá "spoilers", ou seja, não revelarei nada sobre o enredo do livro.

ARQUEIRO INGLÊS


O livro mostra como atuava o arqueiro inglês no século XIV, durante a chamada "Guerra dos Cem Anos", que foi um emaranhado de conflitos armados que teve como motivo principal questões de sucessão de trono entre França e Inglaterra. Um erro muito comum é associar o arqueiro à nobreza. na verdade, os nobres também utilizavam o arco, mas somente para diversão: caça esportiva, na maioria das vezes. O arco de guerra, chamado de arco longo, era utilizado por soldados comuns. Os nobres lutavam montados em seus cavalos, vestiam armaduras e cotas de malha e brandiam espadas. Manter um cavaleiro em combate era muito caro, ao passo que manter arqueiros era bem mais barato! 
Ao que tudo indica, nenhuma outra tropa de arqueiros era tão boa como a tropa inglesa. Os besteiros (genovezes mercenário, principalmente), que tinham a vantagem de suas flechas (quadrelos) alcançarem uma distância maior, perdiam para o arco longo na cadência de tiro.

A IGREJA, A INQUISIÇÃO AS SUPERSTIÇÕES

O trabalho dos inquisidores também é mostrado no livro. E, como é de praxe na obra de Cornwell, com detalhes sórdidos. A atuação das ordens religiosas e as superstições do povo da época também são alvos de detalhes interessantíssimos. Dá para ter uma boa noção do que era a vida na época e de como as pessoas eram presas aos costumes religiosos rígidos. 

COMBATES!

O mais interessante da obra "A Busca do Graal" são as descrições dos combates: um primor! E são combates reais, ou seja, eles realmente aconteceram! Assim, é um verdadeiro deleite para quem gosta do gênero. No primeiro livro, por exemplo, podemos ver o combate em Crecy, um dos mais importantes da Guerra dos Cem Anos, assim como o cerco a Caen. 

OU SEJA...

Leia os livros! Não se arrependerá! Leia o quanto antes, ou um arqueiro poderá lançar uma flecha no seu traseiro!!!


quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

FIM DE ANO



Bom, mensagem de fim de ano! Sejam muito felizes ano que vem (e no fim desse também...), estudem muito, aproveitem a vida! Não adianta ficar se lamentando nem esperando que um milagre aconteça. Temos que trabalhar para que as coisas boas aconteçam. Se não aconteceram... certamente não fizemos tudo o que podíamos ou não era mesmo para acontecer!
:(

Bem, meu fim de ano está muito agitado, estou pesquisando muito pouco (bem aquém do que eu desejo)... estou atarefado no serviço... bem, as férias estão aí para isso, né? Tenho que apresentar minha monografia em março de 2011, e preciso apressar meu trabalho.

Finalizando, agradeço de coração todas as visitas recebidas no meu Blog, fico muito feliz em saber que o que escrevo está sendo lido por vocês. Meu sonho é um dia poder lançar um livro, e esse Blog é um meio de manter esse sonho vivo. Obrigado, mais uma vez!

Essa foto aí de cima é também uma forma de agradecer a minha esposa pelo carinho e companheirismo ao longo do ano de 2010. Não é fácil me aturar, acreditem! :)

Um abraço a todos, até 2011!

Marechal Hermes da Fonseca - Parte II

Vou continuar falando sobre o Marechal Hermes da Fonseca, sem dúvida um expoente tanto militar quanto civil. Era sobretudo um patriota e agia sempre pautado na sua visão do que seria melhor para o país. Por conta da sua capacidade em agradar tanto os seus superiores quanto aos políticos, chegou a ser presidente do país entre 1910 e 1914.

REFORMAS MILITARES

Vou aprofundar um pouco mais nas reformas do Marechal Hermes. Deu enorme ênfase para o recrutamento, visto que a falta de efetivo mobilizável em tempo de guerra era um problema recorrente no Brasil. Tivemos problemas para mobilizar pessoal para a guerra contra Solano Lopez, na luta em Canudos, no Contestado e por fim na questão do Acre. Sendo assim, instituiu o serviço militar através de sorteio, com a lei nº 1860 de 4 de janeiro de 1906. Pretendia escolher sem privilégios, e chamar à Caserna tanto os ricos quanto os pobres. A lei gerou muita discussão e não funcionou bem a princípio, mas foi um passo importante para a História Militar Brasileira.
Outra mudança foi em relação ao local dos aquartelamentos. Resolveu agrupar os quartéis ( medida já defendida antriormente pelo General Mallet, que também foi ministro da Guerra) em locais escolhidos através de pesquisa realizada pelo Estado-Maior. Antes dispersos nos territórios nacionais, eles passariam a ficar próximos, exigindo menos recursos para serem mantidos e gerando maior rapidez na concentração e formação das chamadas "Grandes Unidades" (brigada e divisão, que antes só eram formadas durante as guerras). Criou as escolas regimentais, onde eram ministradas instruções práticas para as praças, que antes, em muitos casos, não tinham sequer treinamento de tiro! Em Canudos, por exemplo, ficou evidente que os sertanejos atiravam muito melhor que os soldados do governo!!! Lutou para que o Brasil tivesse sua própria fábrica de pólvora, para ficar menos dependente de governos estrangeiros. Militares brasileiros estagiaram no Exército Alemão, a fim de adquirir conhecimento para profissionalizar o Exército Brasileiro. Mais tarde, seriam conhecidos como "Jovens Turcos", que já é uma outra história... quando tudo levava a crer que uma missão alemã viria ao Brasil para instruir nossos oficiais, pressões, principalmente de São Paulo, que havia contratado uma missão francesa para instruir os oficiais da força pública do Estado, fizeram com que os franceses tivessem prioridade. Mas isso também é outra história...

PRESIDENTE!

Disputando com Rui Barbosa a presidência em 1909, Hermes mostrou sua força no cenário político nacional. Destaca-se que Rui Barbosa era uma figura extremamente popular, e na literatura sobre o assunto achamos inclusive insinuações de que as eleições foram fraudadas de alguma forma... verdade ou não, o governo do Marechal Hermes foi extremamente conturbado. Foi a época da política "Salvacionista", que consistia na inserção de militares nos governos estaduais, o que gerou muitos problemas ao interferir na oligarquias estaduais.

Bom, terei que escrever mais um post sobre esse assunto para encerrá-lo. Recomendo (se é que já não recomendei antes...) a leitura do livro "Soldados da Pátria", do americano Frank D. MacCann, que tem uma visão bem fundamentada sobre o assunto.

Bem, é isso por enquanto. não sei se vou falar desse assunto na sequência, mas com certeza vou fazer uma terceira parte. Até mais!

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O Marechal Hermes da Fonseca - Parte I



Um dos maiores vultos da História Militar Brasileira, o Marechal Hermes da Fonseca (sobrinho do Marechal Deodoro da Fonseca, o proclamador da República) é o principal responsável por uma das maiores reformas que o Exército Brasileiro já passou. Contarei seus feitos a partir de 1904 em diante em duas partes. Na segunda parte, deixarei a Bibliografia utilizada.


Hermes Evita uma Revolta


No fim do século XIX e início do XX, o Exército tinha em suas fileiras oficiais doutrinados pelo Positivismo, uma linha de pensamento a favor do progresso pela ciência e contra a guerra e o uso da violência. Essa influência acabou alterando a instrução, tornando a formação do oficial muito acadêmica, isto é, mais voltada para a ciência do que para a guerra. Os veteranos da Guerra do Paraguai eram ignorados (muitos até ridicularizados) e só se dava valor as doutrinas filosóficas e científicas. A consequência disso foi o envolvimento desses militares, os chamados "bacharéis", com a política. Em 1904, com as reformas na cidade do Rio de Janeiro, a vacina obrigatória foi instituída pelo Ministro da Saúde Oswaldo Cruz, desagradando muitos. Serviu de pano de fundo para alguns políticos e militares incitarem uma revolta que na verdade queria depor o presidente Rodrigues Alves. foram 8 dias de revolta, quebra-quebra e confusão nas ruas da cidade, que ficou em estado de sítio. Duas unidades militares se rebelaram: A Escola Preparatória do Realengo e a Escola Militar do Brasil, na Praia Vermelha. A Escola de Realengo teve o movimento descoberto pelo então General Hermes da Fonseca, que tratou de anulá-lo. A Escola Militar da Praia Vermelha travou combate com as forças do governo na tentativa de depor o presidente no Palácio do Catete, mas foi rechaçada. Havia muito tempo que os ministros alertavam quanto às necessidades de reformulação do Exército. Porém, nenhum teve êxito em convencer o governo.


Comandante do 4º Distrito Militar


Foi nomeado Comandante do então 4º Distrito Militar (Rio de Janeiro, capital federal na época) em 1905, e logo empreendeu treinamentos em conjunto com as diversas Unidades Militares da Capital. Deslocou as tropas até Santa Cruz, numa manobra que fez toda a cidade comentar (muitos assustados, pensando se tratar de uma guerra...). Vendo que o resultado prático não tinha sido bom (na verdade foi muito ruim), resolveu realizar um novo exercício, desta vez com a presença de autoridades civis e militares, inclusive o próprio presidente, em 1906. Com isso, demonstrou na prática que era necessário investir no Exército!

A primeira mudança veio ainda em 1906, com a renovação do currículo das escolas militares, que tiveram inclusive a forma de ingresso e as denominações modificadas. A Escola Militar da Praia Vermelha foi extinta (muito devido a sua localização próxima ao palácio do governo... havia o medo de uma nova revolta).


Marechal Hermes: Ministro da Guerra


Em 15 de novembro de 1906, Hermes assume o Ministério da Guerra e começa o processo de modernização do Exército instituindo o serviço militar obrigatório por sorteio e as Brigadas Estratégicas (grandes concentrações de quartéis visando melhorar o treinamento conjunto e facilitar a mobilização para a guerra). Em 1908 é convidado pelo Kaiser Guilherme II para conhecer o Exército Alemão, voltando dessa viagem convencido a mandar uma missão militar para obter conhecimentos nesse exército.
Continua...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Reta Final!

Senhoras e senhores minha pós-graduação entrou na reta final! Sexta passada (22/10/2010) realizei as últimas provas (período pós-Segunda Guerra: Geral e Brasil) e agora só resta a monografia! Lá se foram 18 meses de estudo e agora terei mais 4 meses para terminar e defender meu trabalho!

Minha monografia versa sobre a criação da Vila Militar do Rio de Janeiro e seu papel no desenvolvimento do Exército. Estou acumulando material desde o início do ano e já tenho o suficiente para escrever bastante! Ainda falta alguma coisa pra ficar bom... hora de correr atrás!

Como vocês podem imaginar, estou atarefado com isso (além das responsabilidades no trabalho e com a família) e não tenho publicado com frequencia. Mas vou procurar pelo menos uma vez por semana escrever por aqui (gosto muito de escrever!).

Bem, é isso! Agradeço o apoio de todos e as mensagens sempre animadoras. Isso me dá forças para continuar trabalhando em meus projetos! Obrigado de coração!